Wednesday, November 11, 2009

Claude Lévi-Strauss-Antropólogo da Alma

Morreu em 30 de Outubro o homem que devolveu a alma aos indígenas das Grandes Antilhas e aos brancos Espanhóis, após a descoberta da América. Uns enviavam comissões para se saber se os índios tinham alma, e outros afogavam os descobridores europeus para verificarem se os cadáveres entravam em putrefacção.

Morreu o homem que deu rostos humanos à densidade fechada da Amazónia, e restaurou para o pensamento teológico da Europa a inocência da nudez do primeiro Éden do primeiro homem e da primeira mulher, entre as tribus dos Nambikwara e dos Tupi-Kawahib.

Morreu o homem que afirmou que «existem muito mais culturas humanas do que raças humanas» e que repentinamente espaço e tempo se confundem.
O seu estruturalismo edificou no inefável dos arcanos das raças esquecidas um espaço imaterial
para a alma humana, que era negada pelas raças ditas superiores.

Foi o antropólogo, dos homens e das suas linguagens, dos morfemas e dos fonemas da linguagem humana perdida nos meandros das selvas, que odiou as viagens e os exploradores, mas viajou nas décadas de 30 e 40 sobretudo, para trazer à dita civilização europeia, civilizações alegadamente perdidas.
Por isso foi como linguista também que transformou os tabus sobre o desconhecido em antropologia, em homens e mulheres sobretudo.

Percebi isso quando há 35 anos li Raça e História. E entrei no coração dos trópicos, na alma devolvida aos indígenas, quando li, mais tarde, Tristes Trópicos.
E para os dias de hoje foi um profeta, anteviu na década de 50 o nosso rosto ocidental em transformação na Ásia, a mesma que estava e está a antecipar o nosso futuro, e já isto nos seus tempos de vigor o assustava.

Morreu aos 100 anos em plena globalização daquele seu medo - descrito nos Tristes Trópicos - «o que me assusta na Ásia é a imagem do nosso futuro por ela antecipada».

Monday, November 09, 2009

Morreu-me um Amigo Poeta e missionário


A última crónica que o Florentino Lavrador escreveu no seu Allahu Akbar!, em Abidjan, Costa do Marfim.


"Gostaria de viver à "tripa-forra" como qualquer pessoa no mundo, mas não vivo, e nem isso me dá pena. Li num livro muito interessante que "uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do Senhor dos Exércitos". Foi por esta regra que quis pautar a minha vida sem sempre o conseguir...realizado? de modo nenhum. Enquanto existirem crentes chiques sentados nas igrejas e homens miseráveis sem haver ninguém que lhes fale do evangelho não estarei, repito, de modo nenhum, realizado!»


Morreu ontem, com um tumor cerebral fulminante. Até já, Poeta.

Outra crónica, de 13 de Maio:

«Depois de alguns dias de chuva intensa acalmou-se o céu e o calor imenso tornou ao seu lugar. As ruas parecem-me agora mais lavadas e simpáticas e até as pessoas aparentam um ar mais feliz. Saímos para evangelizar como habitualmente e foi-me mister apanhar um transporte público. Depois de muito esperar alguém tomou o meu lugar no « woroworo » amarelo. Não me apeteceu reclamar mas o meu companheiro não hesitou em fazê-lo. Pedi-lhe por favor para se acalmar pois decidi desde algum tempo não tecer juízos de valor. Ele olhou-me espantado tentando compreender a minha “loucura”. Não sei se estou a ficar mais maduro ou mais paciente mas sei que estou a ficar mais velho. Deve ser isso, a idade a fazer das suas!»

Cd Tiago Guillul IV ou o rock protestante

«Ouço chamar o meu nome três vezes durante a noite / Três vezes durante a noite / Ou o anjo me vem saudar / Ou ministrar-me um açoite». Um começo para o rock-punk protestante.
Este também: «Lou Reed queria ser preto/Eu quero ser Lou Reed/ Anão quer ser Golias/ Golias quer ser David».


Eu já tinha entrado no rock evangélico, nesta década, através de bandas como Éden, da AD Ovar, nunca havia entrado fundo no punk-rock evangélico, ou melhor no bom rock protestante. Chegou às minhas mãos, pelo meu filho João que frequenta a Igreja Baptista de Benfica, o trabalho já nacionalmente reconhecido do pastor Tiago Cavaco (dito Guillul).

Este Cd é muito mais do que um rompimento de preconceitos. É uma mensagem, o meio é a mensagem.

Thursday, November 05, 2009

Conto com estrutura de novela


Auto-Retrato, ou uma ficção literária sobre uma mulher doente há 12 anos.

Florbela Ribeiro, experimentada no conto de raíz bíblica e evangélica curto, abalançou-se agora naquela que poderá ser uma novela pequena, na sua extensão e estrutura. Aqui, no Portal Evangélico.


"Jéssica repousava a excessiva magreza do seu corpo cansado e doente. Na cama adornava a silhueta esguia com uma nobre e delicada colcha de linho, bordada à mão. Mas permitiu que o seu olhar baço pela dor se ausentasse dali.
Através da janela entreaberta, entrava uma brisa fresca, que fazia esvoaçar com subtil leveza a brancura da cortina de organdi.
Havia um sinal de que o calor intenso que se fizera sentir ao longo de quase todo o dia, começava finalmente a dar tréguas.
Em frente, e por cima da cómoda de carvalho maciço, o auto-retrato, pintado por um conceituado artista israelita, observava-a atentamente, parecia perceber quais os caminhos por onde vagueava o pensamento."

Saturday, October 31, 2009

África

Sem sapatos, os pés na terra
descalça, sem camisa
sem a negrura
dos problemas da alma

Com o coração forte
como a corrida do antílope
com uma casa de vento
capim e barro

Sentada à porta fumando
a fogueira foge
para o rotundo silêncio
no seu mover lento

Aos seus pés insectos mortos
descem até ser pó
e a atmosfera cheira
mudando de lugar

e nas tuas mãos
a terra gretada, os teus dedos
adormecem os cabelos
dos teus filhos.

24/10/2009

Wednesday, October 28, 2009

Socalcos da memória

Foram-se os anos
e o vigor da juventude.
As encostas transportam as marcas
que o tempo cavou.
Por entre vincos e socalcos,
surge um lampejar enevoado.
Cerram-se as portas atrás das sebes.
Tenta-se olvidar a ausência de quem parte,
sem chorar de abandono.
Abrem-se as janelas da memória,
entram as alegrias de outrora,
e a solidão relê, uma e outra vez,
a mesma história.

Florbela Ribeiro

Saturday, October 24, 2009

Ecce Poiema




"Mas como não acreditaste no que te disse, vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que isso acontecer, pois tudo se realizará no tempo devido.”

Evangelho de Lucas 1:20 (versão A Bíblia para todos, p. 2'44)

Para mãos que trabalham
sem uma língua treinada
o silêncio pode ser de ouro
ou de chumbo maciço

Porém, esse silêncio ainda fala
ainda está cheio de poemas, cânticos
confessa apreensões ou revela sonhos
da dentro da linfa, das cavidades do osso

Voz que duvida, que fala do que não sabe
que com as mãos se queda a queimar incenso
a vigiar que a chama da menorah perene arda
a oferecer os pães

que escreve febril o que o silêncio apenas sussurr
ao que a voz na laringe emudece

Que te diz e conta, Zacarias, a voz que te secou?
Voz que guarda e
burila a sabedoria
que decanta os segredos
confiados pelo anjo do Senhor
esculpidos no ventre da tua mulher
afinados em outra voz, a que clamará no deserto

Mas quanto melhor
não é,
como numa salva de prata uma maçã de ouro servida
é a voz irrompendo
finalmente instruída e madura
que fala
e canta os altos louvores do Senhor!

22/10/09

Poema de Rui Miguel Duarte

Thursday, October 22, 2009

A piscina de Saramago

«Saramago ao inaugurar a sua nova piscina literária baptizando-a de Caim, anunciou aos nadadores um oceano infinito chamado Bíblia. E ninguém vai querer um patinho de borracha ou uma bóia numa piscina com cloro quando pode pescar e mergulhar num oceano de águas profundas.»

Artigo de João Pedro Martins, em
A Ovelha Perdida

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Hoje, no FACEBOOK

Saramago é um anarquista de Deus - há Deus? Então eu sou contra.
E desenvolveu um novo ateísmo- «Deus não pode existir, não existe mesmo, mas é uma «pessoa que não é de fiar», é «vingativo», etc.
Afinal trocou-se a não existência de Deus pelos juízos éticos e morais sobre o Deus que existe. É melhor ser ateu, apenas.