Monday, July 13, 2009

Anatomia da Angústia no «Grito» de Munch

O quadro de Munch não é uma história gráfica da angústia à maneira de Franz Kafka, mas uma coisa leva a outra.
Josef K. no romance O Processo poderia gritar assim. Ou qualquer outra realidade angustiante dos dias de hoje- a crise no meio da ponte-, poderia fazer exprimir assim a ansiedade e a angústia.
Por exemplo, um elevador detém-se automaticamente com um solavanco. As portas deslizam e abrem-se, mas em vez da saída, o passageiro enfrenta apenas uma parede em branco. Seus dedos apunhalam os botões: nada acontece. Finalmente, ele aperta o sinal de alarme. Uma voz brusca, ouve-se: "Qual é o problema?"
O passageiro, com a sua voz dentro de uma caixa de ossos e adrenalina, explica que quer sair no 25º andar.
"Não há 25º andar neste prédio", diz a voz do altifalante. O passageiro argumenta que é um absurdo, ele trabalha aqui há anos. Ele diz o seu nome. "Nunca ouvi falar de você", diz o altifalante.
"Isto não me está a acontecer", murmura ele. "Eles estão apenas a tentar assustar-me." A situação agora torna-se uma situação de angústia.

Durante séculos de civilização cristã (e não cristã), o homem assumiu a sua culpa e daí a ansiedade, ambas fazem parte da sua natureza, como um ser finito e caído dão-lhe a dimensão da culpa.
Os remédios foram e continuam a ser apenas a Graça e a Fé. Quando a Idade da Razão, como suposta primavera pretendeu vir revogar o outono da Queda, o impulso do homem foi voltar a si próprio com uma falsa segurança, e, por um tempo, essa Razão parecia ser um substituto adequado para as certezas da Fé.

O homem colocava-se na posição que Dostoesvsky no seu romance «Os Possessos», faz dizer à personagem Alexis Kirilov: «Se não houver Deus, então eu sou deus.»
Mas não é, daí a angústia, porque na anatomia do homem há um buraco que é a forma do grito.
Para o existencialista, o grito do homem provém do alegado silêncio de Deus. Kierkegaard, que foi um existencialista cristão, contrapunha que era preciso saber distinguir a voz divina, como Abraão o fez, porque Deus fala.

O silêncio que parece rodear os ouvidos do homem, do qual presume que está no nada caótico do princípio da Criação, ou pior, que Deus está ausente, não é assim um drama – é nesse silêncio que melhor se escuta a Voz do Divino. É o ambiente melhor e mais adequado para se fazer distinguir a Voz original dos ecos, como diria o poeta espanhol Antonio Machado. ( A distinguir me paro las voces de los ecos, / y escucho solamente, entre las voces, una.)

O pensador Miguel de Unamuno, ao pensar também sobre este tema, tem um capítulo (En el fondo del abismo) no seu livro fundamental ao pensamento religioso e filosófico ocidental, «Del sentimiento trágico de la vida», em que a dado passo afirma: «Por desesperação se afirma, por desesperação se nega, e por ela se abstém alguém de afirmar e de negar.
Observai os nossos ateus, e vereis que o são por raiva, por raiva de não poder crer que haja Deus. São inimigos pessoais de Deus. Têm substantivado e personalizado o Nada, e seu não-Deus é um anti-Deus.»
E escreve também sobre o anelo vital de imortalidade do ser humano, ora este anelo vital não existe sem Deus e sem que a Sua voz, mesmo através de canais da natureza, como o nosso semelhante, o bébé que chora como um primeiro sinal de mais uma voz no mundo, o universo regulado pela imensa Mão, se faça ouvir no mais recôndito silêncio da nossa alma. E assim da Sua Voz no Mundo por Ele criado podemos passar à Sua Palavra.
É o reconhecimento da voz querida que nos leva a anelar as suas palavras, o seu verbo no esconderijo da nossa capacidade da amar, que só a centelha do Espírito divino dispôs em cada um de nós.

Aveiro, 12-7-2009
Extraído do Portal Evangélico

Friday, July 10, 2009

Da Pequena Sala em Aradas

DA PEQUENA SALA EM ARADAS*


ASSEMBLEIA DE DEUS EM AVEIRO, 50º ANIVERSÁRIO
1959-2009

João Tomaz Parreira

“Numa localidade chamada Aradas, apareceu uma pequena sala e ali foram feitas as primeiras reuniões”, escreveria em notas manuscritas para a sua família, quase cinquenta anos depois no seu derradeiro ano de vida, em 2007, a cristã Adriana Pereira, viúva do fundador do trabalho da Assembleia de Deus em Aveiro.

Partindo do locus histórico que foi essa pequena sala, estrutura-se este pequeno livro. O mesmo não abordará toda a extensão da história destes 50 anos de existência da Assembleia de Deus em Aveiro, para esse desiderato existe já o livro «40 Anos Assembleia de Deus Aveiro», editado em 1999, e que reproduz todo o percurso, pastorado a pastorado, do que aconteceu em termos históricos na nossa comunidade assembleiana.

Tal livro teve todas as virtualidades, desde logo a de 40 anos objectiva e realmente transcorridos, e também fotografias que guardaram para a posteridade membros e oficiais do Ministério da igreja que já descansam com o Senhor.

Este pequeno livro agora, ao cabo de meio século, pretende ser apenas uma história não de 50 anos, mas como estes se iniciaram na nossa história desde 1959.

*Pequeno livro em preparo, para ser apresentado em Outubro.


Thursday, July 02, 2009

A Visitação

Chegas todos os dias na prata
do ar, por tua causa os jardins
movimentam-se de abelhas
o estame das flores
vai tecer raízes em novos lugares

Chegas e fazes saltar os pássaros
das linhas da noite
És poderoso e todavia
mesmo a mão de uma criança
te fecha

As transparências são a tua água
navegável ainda pelo mais fundo
a que os olhos chegam
Chegas todas as manhãs e fecundas
na palidez dos frutos a tua cor
E cada fruto acorda sem precisar de espelhos

Chegas e endireitas o arco
das nossas costas e a nossa alma
foge para ti

Saturday, June 27, 2009

Expressionismo, profecia da barbárie do séc.XX

Emil Nolde, Metrópole


«Quando Gregor Samsa acordou uma manhã, depois de um sonho agitado, achou-se transformado num gigantesco insecto.» ( para começar com um parágrafo definitivo de Kafka), foi o início de um pesadelo que representa uma alegoria. O escritor checo usou-a na novela A Metamorfose (1912) para explicar o absurdo da humanidade tão cheia de lógica, a dar os seus primeiros passos no idealismo do super-homem para as filosofias existenciais, mas que vê-se repentinamente transformada em qualquer coisa de mal, nos acontecimentos mundiais que a história europeia conhece desse tempo.

Nas primeiras duas décadas do Século XX, a angústia, a inquietude e a morbidez apoderaram-se da humanidade. E foi o Expressionismo Alemão que revelou esse estado de espírito, «profetizando» o mal que se iria abater sobre a Europa em particular e o Mundo de um modo geral.
Nas artes plásticas, como reacção à fase derradeira do Impressionismo (chamaram-lhe pós-Impressionismo), ergue-se na Alemanha uma ponte (Die Brucke) que liga aquele às novas correntes estéticas, mas que ao atingir o outro lado dessa ponte - o Expressionismo- corta quaisquer veleidades de um regresso. O novo movimento seria a arte do instinto, substituiria a impressão do momento causada de fora pelo sentimento nascido no interior, expressando-se patética, trágica e sombriamente, com uma técnica violenta.
Os quadros que foram sendo criados revelavam, na crueza das cores vibrantes e resplandecentes, nas deformidades das figuras, nos desequilíbrios da época, que estavam a preparar-se as hecatombes das primeiras décadas de um século de barbárie, o caos generalizado na economia das nações e nos povos das pátrias.
A tela mais impressionante que antecipava esse período, pela angústia que demonstra, é, sem dúvida, O Grito (1906) do norueguês Edvard Munch. A violência profética do que haveria de ser o grito lancinante da Europa dos guetos e dos campos de concentração e extermínio nazis, dos bombardeamentos em massa, e - não o esqueçamos- dos Gulag estalinistas. Sobretudo, impossível de englobar em um só grito e de olvidar pela História, o trágico Holocausto, que aplicou a dizimação de milhões de judeus da Europa e explorou antes sua mão-de-obra escrava. O trabalho forçado que, financeira e capitalisticamente, rendeu ao Estado Nazi, só do campo de concentração de Buchenwald, durante Março de 1944 - faz agora 60 anos-, 3.465.745,85 de reichsmark.
Mas, de um ponto de vista profético, o Expressionismo influenciou muito mais a poesia. Como sinal dessa identificação, havia sobretudo a crueza do verso, do verso militante que não procurava sustentar-se no lirismo, mas no descarnamento da realidade, uma poesia até ao osso.
Como nas obras de arte, o aspecto da deformação da realidade e a angústia existêncial do homem moderno estão patentes na poesia expressionista.
Poetas como Gottfried Benn, August Stramm, Georg Trakl, e uma poetisa Else Lasker-Schuler, para só citar os mais conhecidos, descreveram o caos de uma forma nua e crua, as palavras carregaram-se de angústia e no lugar das emoções expressaram as tensões e os tumultos da alma humana. Foram, de certa maneira, como alguém lhes chamou, «os poetas do grotesco».
Mas um dos poemas ardentemente radicais e proféticos, extravassando o desespero perante os indícios da realidade, que viria a chamar-se barbárie, veio de um poeta não tão notável quanto aqueles; Albert Ehrenstein -« Conservadas pelo frio, amontoam-se à volta do charco,\ Do lago do mundo dos mortos, \ As torres de cadáveres.». Nestes versos, o campo semântico remete para a guerra e prepara com a metáfora da mitografia da Barca de Caronte (o barco que transporta os mortos), o ambiente da catástrofe que seria a II Guerra Mundial e todo o horror dos campos de extermínio nazi. Este mesmo poeta descreveria, porventura sem nenhuma ligação ao quadro de Munch, o grito do Homem em versos como «Nós, os amordaçados, estamos envolvidos \ Por demónios, e brutalmente oprimidos», dum poema intitulado «Grito humano».
Todavia os grandes poetas desse movimento chamado Expressionismo, fariam associações mais grotescas da realidade com a metáfora, abrindo o tom lírico do verso à sensação selvagem, para que o verso sangrasse e provocasse até à dor.
Um excerto de um poema premonitório, «Berlim», pobre de metáforas, mas tão irónico como só Gottfried Been poderia escrever, é exemplar: «Quando arcos, pontes, erguidos,\ forem da estepe engolidos \ e o burgo areia escura \ e as casas desabitadas \ e as hordas e as armadas \ pisem nossa sepultura... \ hão-de as ruinas falar \ da grandeza do Ocidente ».
O futuro iria reservar à Europa uma reacção nova sobre a morte, a banalização da mesma. E assim o mesmo poeta, com uma morbidez irónica, anteciparia o que as SS e a Gestapo fariam perante a morte dos outros, ironizariam e comparariam seres humanos com piolhos. Um breve excerto do poema «Bela Infância» bastará: « A boca de uma rapariga que passara muito tempo no canavial estava tão roída.\ Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado \ Finalmente...\ encontrou-se um ninho de ratinhos. \ (...) \ Mas depressa tiveram também uma bela morte: \ Deitaram-nos todos à água. \ Ah, como os pequenos focinhos chiavam.»
O chamado «apocalipse alegre » da Europa de Strauss e Wagner, de Goethe e Heidegger, da primeira década, e da segunda e depois da terceira, foi vaticinado por outros poetas, como Georg Trakl, que não assistiu à «revelação» dos seus poemas sobre o desvario niilista do mundo, a hecatombe e a morte ( cometeria suicídio em 1914). «Vi-me num sonho de estrelas caindo,\ De preces chorosas num olhar ferido, \ De um sorriso que vinha ecoando - \ Mas não sabia entender-lhe o sentido. » Ou «Vi cidades pelo fogo consumidas \ E o cortejo de horrores pelo tempo fora, \ E muitos povos a pó ser reduzidos, \ Perder-se tudo nos fundos da memória » (do poema «Três sonhos»).
Tremendo entre estrelas e violinos, a nossa Europa das primeiras quatros décadas, foi-se afundando numa noite escura, que só o Julgamento de Nuremberga procurou, apenas com êxito judiciário, explicar.

Tuesday, June 23, 2009

As ovelhas ofendidas

"Não sou ingénuo ao ponto de acreditar que a transformação do celibato obrigatório em facultativo, defendido já por muitas vozes altamente qualificadas da igreja romana, seja o suficiente para resolver este tipo de problemas. Mas que ajudaria muito não tenhamos dúvidas. E sobretudo possibilitar-se-ia aos sacerdotes católicos a hipótese de viverem a sua humanidade de forma muito mais livre, autêntica e coerente.
Afinal, Jesus Cristo nunca fez voto celibatário nem o exigiu aos seus discípulos."

-Afirma AQUI o dr.Brissos Lino, no Setúbal na Rede

Sunday, June 21, 2009

Crianças que olham os dragões


Meninos do Saurimo. Foto tirada pelo autor em Angola, em 1969, na Guerra Colonial.

Como as crianças que olham os dragões
os meus olhos ainda se espantam
quando as nuvens passam
num retrato de família as cores umas às outras
e são algodão
doce e carrosséis

como as crianças que olham para os dragões
ainda me surpreendo com nenúfares
que põem a mesa
nos rios

Como as crianças que olham
os dragões, os meus olhos
prendem-se aos gestos
das netas e dos netos, e o tenso coração
é uma sombra do que foi
até isso me admira
por causa das Tuas maravilhas.

Tuesday, June 16, 2009

Para a História da Poesia Evangélica

Revista A Seara, de Março de 1974