Sunday, March 30, 2014

O ENCENADOR




No princípio ouviu o seu próprio silêncio.
Não havia terra nem estrelas onde pousar a sua luz.
A sala estava vazia, não havia Rosa dos Ventos
para espalhar o seu olhar, as suas mãos
de fazedor eram a voz

E disse “Haja luz”, e tudo
começou a ser jovem, as palavras, as aves e os rios,
a juventude das fontes trazia as águas novas,
a claridade dos sons,
das ervas e das árvores,
a ascensão das flores do chão.

Sentado no palco na sua eterna sarça
olhava a multiplicação do respirar dos homens.

Agora o tempo atravessava a noite
e o dia, que vinha do sol para aquecer os rostos.
E viu Deus tudo e disse que era bom.

30-03-2014

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Sunday, February 23, 2014

EPITÁFIO DE UM JUDEU EM TREBLINKA




Estou aqui e a cinza não morreu
é como o pó
que regressa às mãos divinas

Por que tive de ser um Judeu
dentro de um sobretudo preto e depois esquecer
 os salmos, presos pelo fio da fome ?

Vendi o meu violino numa rua no gueto
e  ninguém pôde prometer nada
ao outro, nem sequer Deus.

23-02-2014
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Tuesday, January 07, 2014

Uma Ética Pré-Cristã em Píndaro

Uma Ética Pré-Cristã em Píndaro


" Píndaro, o maior poeta lírico da Grécia no séc V a.C., representa o lirismo que impõe valores éticos na poesia a fim de serem seguidos em excelência pelos homens.
A sua lírica coral perorava poeticamente sobre o que o poeta considerava excelência dos vencedores dos jogos pan-helénicos, celebrava com odes triunfais não só quem vencia, mas os valores que se traduziam a partir das vitórias, que eram cantados e se espalhavam dos seus poemas para a música.
Na Grécia clássica celebrava-se a luta (àgonía / ἀγωνία ) individual, não havia jogos colectivos, nem vitórias em equipa, a honra ou desonra era individual,  mas os pensamentos do lirismo de Píndaro ajustavam-se, sobretudo, à humanidade, ao colectivo dos homens."


Para ler na íntegra aqui http://www.apologetica.pt/

Tuesday, December 31, 2013

O FILHO MORTO



Ninguém sabe como os olhos
Do Pai penosamente
Fugiam pela Casa
A esperar o Filho morto, esperar assim
Com o Amor em sangue
A tempestade no Céu, a voar no cântico dos anjos
Os prantos cheios das dores do Filho
E o Pai com mão imponderável
Aparta da cruz os seus olhos de silêncio
E da palidez do Filho
E espera que a Aurora se levante e traga o dia
O terceiro dia verdadeiro.

31-12-2013
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Saturday, December 07, 2013

ISRAEL


 
Israel não te esqueças de pedir a memória
Nas tuas lamentações sagradas
Israel não adormeças no museu
Das tuas pedras, Israel
Não esqueças o mundo
Israel quando é que enviarás
Todas as semanas corações
Para lerem o Apocalipse?
Israel tu conheces a lei
Dos artigos de Maimónides, tens o costume
De ler Moisés e ficar preocupado
Com todos os cordeiros do país
Israel tu repousas em citações
E costumas nutrir por Jeremias
A ternura das tuas lágrimas
Israel tu detestas Isaías
Por isso o encerras no vidro da universidade
Israel pensa naqueles que voaram
Como pombas e andaram apalpando
Pela noite as suas janelas
Que esconderam a vergonha dos seus olhos
Em pequenas ruas, ao comprarem leite
E sal para as suas feridas
Israel quando te tornarás um menino
Um bando de pombas a olhar o vento
Que descansa nas figueiras
Israel levanta em redor os teus olhos
Para o mundo ver que estão cheios de lágrimas
Como no ano 132, quando te tornaste sionista
E vestiste Bar-Cochba de messias
Israel acorda todos os sonhos dos lábios
Israel as sinagogas são tarde demais.

1/1986
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Wednesday, December 04, 2013

ESTE SALMO 23 DO SUL



Para a minha Mãe ( Sousel, 3/12/1922 -  )

Mesmo aqui na imensa fragrância da cor
amarelo-laranja

O Senhor é o meu pastor, rodeia-me
de  felizes papoilas e do odor

A estrume fresco, e só o assobio do vento
sobre as águas cálidas já me dessedenta

Transbordam-me dos olhos as distâncias
enche-me da sua presença

 O arco das minhas costas, levíssimo
com o seu olhar sobre mim

Não me persegue a surpresa da morte
durmo sob a minha sombra, num alto monte.

3/12/2013
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Sunday, December 01, 2013

O ÚLTIMO VERSO DO SALMO 23


“E habitarei na casa do Senhor por longos dias” , 23,6


Este verso, ao contrário do que pode parecer, não remete exclusivamente para a eternidade, ou o post mortem do crente, revela-se e amplifica-se no seu sentido maior, que cada momento da nossa vida será preenchido com  as mais ricas bençãos de Deus.
Os versos da poesia bíblica, designadamente nos Salmos, não têm que ter apenas uma leitura submetida a uma única contextualização e uma aplicação literal fechada, tão pouco uma leitura exclusivamente alegórica, neles existe história ( a história de Israel e a do homem como criatura de Deus) como existe teologia, louvor e adoração; por vezes até o Eu poético, num registo intimista, amargurado e arrependido diante do Senhor ( vd o 51).
Particularmente o último verso do Salmo do Pastor, podemos lê-lo de dois modos e dar-lhe a dimensão da eternidade a partir do tempo. Podemos ler o que está lá e o que não está, numa metalinguagem divina. De um modo ou de outro, lê-lo é também um exercício semântico que não dispensa a leitura contextual do verso anterior (vs 5).
O parágrafo que separa ambos os versos 5 e 6, como uma divisão apenas tipográfica que une duas frases num texto, completa todo o sentido de um lugar habitável em que o anfitrião prepara a mesa, proporciona abundância de bens metaforizada no “cálice que transborda”, dá hospitalidade e unge segundo as normas orientais. E nessa habitação não há lugar para os inimigos dos convidados.
Nestes dois versos temos a figura da casa, como habitação onde somos hóspedes de Deus, e sobretudo a narrativa poética da comunhão com Deus na graça e na bondade divinas todos os dias.  A partir deste ponto, podemos ler com uma perspectiva mais alargada, o derradeiro verso com que o salmo termina.
Dividindo assim o verso em elementos, do ponto de vista linguístico observamos o que a frase nos transmite.


“E habitarei” - é em si mesma, literalmente, uma expressão que fala de permanência. No grego da Septuaginta ( a Versão dos 70), no Salmo 23 encontramos o termo katoikein, que significa “lugar onde se vive” e contêm o substantivo “casa” ( oikos).


“na casa do Senhor” - A casa do Senhor poderia ser exclusivamente uma metáfora do Céu, mas parece-nos que o contexto não é isso que nos diz, razão pela qual alguns comentaristas tendem a estender o significado. Mas stricto sensu quer significar quase sempre, como sabemos, o Templo e não o Céu.
A verdade é que tanto no Velho como no Novo Testamento, no grego, quando os autores sagrados  falam do Céu ou Céus, fazem-no de um modo literal para falar de firmamento ou da habitação de Deus.
Os termos usados em dois salmos significativos são comuns e idênticos na tradução grega do Velho Testamento já citado. Salmos 8, 3 e 73,25.
Neles a palavra  “Ouranos”  é também metáfora perceptiva para falar do divino, da divindade do lugar. No grego da literatura clássica tinha também um significado merecedor de nota, era “aquilo que é apropriado para um deus”, isto é, um lugar divino.
Deste modo e seguindo a linguagem poética salmódica, o que o autor sagrado (David ou o autor desconhecido de um dos Cânticos dos Degraus, no Salmo 122 ) quer dizer qundo escreve “casa do Senhor”, é perceptível como sendo o lugar onde Deus está eclesialmente, o templo,  a casa de oração, o lugar onde os crentes se reunem para louvar, adorar e aprender as Escrituras Sagradas, onde estiverem “dois ou três reunidos em meu nome” – disse Jesus Cristo.
Com efeito, na linguagem grega esta figura perceptiva é clara: “oikõ kuriou”.


“para todo o sempre” ou “ao longo dos dias”
A versão da chamada Bíblia dos Capuchinhos exara deste modo o  final do salmo: “A minha morada será a casa do Senhor ao longo dos dias.”
No VT as alianças de Deus com o Seu povo referiam-se ao tempo, aos dias (Ecl 12,1), mas dado o carácter da lógica da aliança divina, que não tinha falhas nem fim, dirigiam-se também para a eternidade.
A expressão na Septuaginta é, deste ponto de vista, clara: makroteta émerõn; indica uma longa distância de dias, o que vai no sentido da conhecida frase coloquial “aquela pessoa teve uma longa vida”.             
A longevidade dos dias neste precioso quanto simples salmo, já chamado “canção da fé” e “de beleza tranquila”, alongam-se para a eternidade. No tempo, porém, vai colocando ao dispôr da ovelha ( metáfora perceptiva) um acervo de bençãos. “A maior das bençãos será uma comunhão íntima com Deus através da continua adoração” (1) na vida e na comunidade do crente.
No decurso de milénios, desde a data em que foi composto, este poema bíblico de várias metáforas extensivas, de fácil percepção, que começa com uma metáfora tomada da vida pastoril e bucólica,  tem dado serenidade e confiança ao crente com a presença divina, mesmo no vale da sombra da morte. Porque além desta está a eternidade.
Finalmente, o sentido prático do derradeiro verso do Salmo 23 foi bem interpretado no livro “Formosa Herança” do saudoso pastor e amigo Alfredo R. Machado: “ Estas palavras além de fazerem referência à eterna habitação de Deus, também se aplicam ao nosso desejo de regularmente estarmos presentes nos cultos da Casa de Oração, juntamente com todos os santos”. (2)

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(1)  Comentário Bíblico Moody, Vol 2, Josué a Cantares,  pág. 377, Pfeiffer e Harrison, IBR
(2)  Pág. 67, CPAD e CAPU, 2006

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