Thursday, March 26, 2015

HINO À LOUCURA


Poema de Ricardo Mendes Rosa


Vivemos a vida de pernas para o ar,
sem ânsia de comer, de beber ou gastar.
Confiamos no ganho da providência,
procuramos morrer todos os dias
e viver eternamente.
Não vivemos pela força, nem pela arma,
procuramos ser como ovelhas simples.
Damos a cara à mão, tanto para o afago,
como para a injúria que levantam contra nós.
Somos simples na maneira de viver,
prudentes e sinceros.
Não vivemos para nós mesmos, como
quem esculpe uma imagem e se auto adora nela.
O mundo não é a nossa casa, nem a carne a nossa roupa.
A morte não é a nossa prisão, nem a doença a nossa cela.
Vivemos a vida de pernas para o ar,
na ânsia de algo que há-de acontecer.
Vivemos a vida e morremos,
na certeza de que para nós, morrer é viver.


28/02/2015

Monday, February 09, 2015

O que cantou a Sulamita a propósito do seu Amado



Era uma vez o meu amado como uma macieira
o meu amado era distinto
entre as árvores do bosque,  jovem
a sua sombra ali estava contra os invisíveis
raios solares. Era uma vez o meu amado
como um fruto doce que derramava
frescura no meu paladar.

Ali estava o meu amado, era uma vez com passas na mão
e maçãs como um rubro engaste
Era uma vez o meu amado a acenar ao longe
com o vento nos seus braços, era uma vez
com um perfume que chegava nas mãos, o seu amor
ao redor dos meus cabelos como um laço.


 21-09-2014

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Saturday, January 10, 2015

O PERIGO DE TER “UMA OPINIÃO”




Ter uma “opinião” anti-semita, anti-islamismo,  anti-catolicismo romano ou anti-protestantismo, apesar da face aparentemente benévola de “uma opinião”, é um caminho que pode deixar de ser inofensivo.

Uma opinião pode transformar-se em acto.  A Europa desde séculos remotos tinha uma”opinião”, exempli gratia,  contra os judeus.

Nós por cá também e contra os Mouros e, por que não?, contra os protestantes..., mas hoje com a nossa proverbial hipocrisia somos todos “Isto e Aquilo”, mesmo que não percebamos o que é “Isto” e “Aquilo”.

Jean-Paul Sartre escrevia que, a propósito do anti-semitismo em França, a palavra “opinião” fazia sonhar… Tal sonho, à luz da História do século XX, não iliba os franceses nem o seu silêncio quando os judeus de França, designadamente de Paris, começaram a ser presos e deportados no início da década de Quarenta, e não era preciso ser colaboracionista nem apoiante de Vichy para tanto, bastou ter uma “opinião” e fazer silêncio. 

O mesmo Sartre, sempre lúcido, escreveu nsobre a chamada República do Silêncio. E, de igual modo, nas suas “Réflexions sur la question Juive”, de 1954, não deixou pedra sobre pedra sobre o anti-semitismo francês, no que lhe concernia como francês, e a perigosidade de ter “uma opinião” anti-semita pelo menos.
Na obra acima referida, escreve “Au nom des instituitions démocratiques, au nom de la liberte d’opinion, l’antisémite reclame le driot de prêcher partout la croisade anti-juive.”  (pág.8).

As “opiniãoes” anti-qualquer coisa são sempre perniciosas, podem acabar em Auschwitz ou Dachau ou na Prisão de Guantánamo de cores modernas. © 

Wednesday, December 17, 2014

A ESTRELA

(Foto da NASA)


“No cerne da solidão / os olhos de Deus”
Joanyr de Oliveira



Se vier, virá do cerne da solidão, do deserto
Das areias cósmicas, do pó esplendente
Dos cometas, se vier
Ancorará cansada o seu vórtice misterioso
No topo do mundo, no sono
Das crianças, nos ramos dos pinheiros, alçará
Os fonemas da alegria, se vier
Será matéria para contar aos netos dos futuros netos

Matéria disparada do etéreo, povoa
O silêncio da noite, estrela que se revela do rebanho
De outras estrelas, o seu canto
Só os anjos acordados à sua própria voz
Conhecem.  Mas canta realmente
Depois de milénios a fio muda?  O frio
Por onde passa é cada vez mais
O caminho, mas cante ou não
Vem da direcção da luz.

17-12-2014
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Sunday, November 23, 2014

Antes do Salmo 51 David e Natã





Com uma das mãos lavo o rosto
Com a água corrente dos meus olhos
A outra apoia-se no vazio, abraça
A solidão, a sombra do silêncio
Da harpa suaviza o meu coração de pedra
Agora de carne e fogo
Um hissope começa a escrever o cântico
Do perdão a sangue e água, no espelho
Do meu rosto.


23-11-2014
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Friday, October 17, 2014

PRIMEIRA CARTA AOS CORÍNTIOS, 13


Juan-Martinez Bengoechea



Conheço as línguas dos homens. São físicas
descrições de sons e sentidos, desdobram-se
em cores para pintar o mundo.  São frias
se vêm do norte, do sul se vêm com fogo.
Com as suas línguas
de metal celeste, conheço os anjos.
Mas será como ter os ouvidos tapados
com silêncio, se não tiver amor.
Conheço a maneira de transportar os montes
e os mistérios que posso esconder
entre os meus lábios, e no espelho
que é a profecia,  posso ver o futuro. Nada será
se não tiver amor. E ainda que conheça a cor
do dinheiro e os pobres
que se alegram comigo, o que importa
se não exercitar na alma o gozo do amor.

17-10-2014

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Monday, September 08, 2014

A DÁDIVA DO MEU ESCULTOR



Dell'universo immemore.

Io vivo quasi in ciel.

(La Traviata, Verdi)



Um dia do azul espaço, um golpe profundo

Deus esculpe a Terra, redonda

pátria minha onde escrevo sinais

que invejam as estrelas

e contra a Morte,  que inveja o poder

do homem ter palavras e silêncios.


08-09-2014
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